Além dos Olhos

A escolha do tema, a ideia inicial do que se quer escrever. Eu normalmente vejo uma cena na minha mente. Como se fosse um ruído de fundo nas minhas atividades cotidianas. De repente, a cena acontece e preciso prestar atenção nela de alguma forma. Para não perder a ideia, anoto no bloco de notas do meu celular. Deixo a anotação ali por algum tempo, não tenho critério quanto isto. O texto anotado pode ficar parado por meses até que eu volte nele para aproveitar a ideia ou descarta-la. Uma delas para exemplificar foi esta: ” Modi. Modigliani. Repete. Está deitado olhando o céu que chega até ele pela claraboia. Continua concentrado nas nuvens e no nome. Modi. Modigliani. Seus quadros…Lembra de alguns. Olha a hora no relógio. Enquanto ouve a ressonância da sua própria voz. Levanta-se vagarosamente. Retira o pano que cobre a tela. Inicialmente havia pintado um outro retrato. Depois resolveu alterar para o busto de uma mulher desconhecida.” Este trecho foi escrito em 17/06/20. O ruído no cotidiano, no caso a cena em questão veio à minha mente num momento no qual eu não estava gostando da minha atividade de trabalho. Gostaria muito de estar neste ateliê de pintura pensando no que pintar naquele quadro ou conversando com aquele pintor sobre arte, num ambiente totalmente oposto do qual eu me encontrava. Fuga da realidade. Sim. Com certeza a fuga da realidade pode ser um estímulo primoroso para imaginação. Mas existem outros. Quem nunca ouviu falar das musas. Bom, tratarei delas num próximo post. Agora, se gostaram da cena acima, aqui esta uma possível continuação. Aproveitem a leitura e obrigada.

Modi. Modigliani. Repete. Está deitado olhando o céu que chega até ele pela claraboia. Continua concentrado nas nuvens e no nome. Modi. Modigliani. Seus quadros… Lembra de alguns. Olha a hora no relógio. Enquanto ouve a ressonância da sua própria voz. Levanta-se vagarosamente. Retira o pano que cobre a tela. Havia pintado um outro retrato, inicialmente. Depois resolveu alterar para o busto de uma mulher desconhecida. Olhou para rosto dela, para seus olhos…Não gostou dos olhos. Seus olhos eram melancólicos demais. Não foi esta a impressão que quis pintar. Porém, estavam lá na tela e o observavam. Decidiu cobrir os olhos com pincelada de ocre. Verde Vessie. Percebeu seu erro. Deveria ter aceitado a melancolia dos olhos. Afinal, já pertencia a eles. E agora, o que fazer? Pintar os olhos novamente? Tentar resgatar a expressão deles? Era tarde. Eles já estavam submersos na tinta, no tecido da tela, na trama invisível da alma do observador.

    Curiosidade: Amedeo Modigliani foi importante pintor do século XIX. Famoso pela      pintura figurativa e em muitas delas, os olhos não eram pintados.

Publicado por lourei

Escritora. Algumas publicações dentre elas: Bernardo (2008) na revista Fundação Cultural de Curitiba (FCC); Resenha Como bonecas Matriochcka: Uma história dentro de outras na revista FCC (2010) e Um Segundo Amanhã no livro Ilha Nômade (2018) Editora A.C. Design

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