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Escrever, escrever e escrever

Caixa é um recipiente no qual podemos colocar algumas coisas. Na minha mente, caixa lembra um presente. Caixa de presente. E presente, quem não gosta?

Meu objetivo aqui neste espaço é refletir sobre o “fazer arte “na literatura principalmente.  Ilustrarei isto com minhas experiências em produção literária, criação de textos ficcionais, com minhas dúvidas, dificuldades, o meu aprendizado em oficinas literárias. Esta minha necessidade de uma escrita reflexiva, observadora de detalhes surgiu ao longo do meu desenvolvimento na produção de contos e no dia a dia da lida com a própria escrita. Percebi uma lacuna de conhecimento em mim sobre este assunto. Então, comecei a pesquisar em livros técnicos da área e resolvi elaborar este projeto de reflexão, um caixa onde outros escritores– leitores encontrem mais fios de novelos para puxar e desenrolar, descubram mais nuances sobre o próprio trabalho de escrita. Mais pistas deixadas sobre suas mesas de trabalho, suas telas de computador, seus blocos de anotações que nem mesmo eles tinham percebido.  Espero que o ato de pensar sobre os processos de criação em literatura e o conteúdo desta caixa possam inspirar pessoas na arte da escrita.

Pontos de Partida Para A Escrita

A leitura e a necessidade de expressão são pontos de partida para a minha escrita.

Ler contos, poesias, romances e outros textos me anima a escrever ficção.Adicionado a isso, a necessidade de expressão diante daquilo que está saturado no meu cotidiano incentiva-me a produção textual.

Escrever, então, torna-se vital.Se penso uma história e não a coloco no papel, ou seja, não externalizo de forma concreta o enredo mental, ela retorna em outro momento.

Às vezes, um personagem ou lugar é o fio do novelo para aquela história ficcional específica, basta puxa-lo para que a história já imaginada anteriormente desenrole-se e volte à minha mente.

A Escrita Do Que Falta

Quando estou escrevendo um conto percebi que muitas vezes é necessário deixar lacunas, um espaço para leitor preencher com aquilo que ele quer; um lugar para interrogações.

O “vazio” no texto convida o leitor para participar da ficção. Neste momento podem surgir indagações e torna-se essencial completar a história, que pode passar a ser dele, se assim a imaginação der permissão para a criação do que falta.

Estas ausências de textos são matéria-prima para criatividade, para participão ativa na leitura de ficção.

Percebi que escrever pode ser um ato solitário até certo ponto, até encontrar um leitor-escritor que queria ocupar os espaços vazios, lacunas textuais com a sua história.

Observação do Cotidiano: Natureza – pistas para um personagem

Comecei a observar folhas.Folhas nas árvores.Folhas caídas no chão. Das tonalidades de verde aos tons terrosos.Havia sempre uma folha à minha frente. Formatos diferentes. O que me intrigava nas folhas? Quando as encontrava posicionadas na terra, no concreto, na grama pensa no seu desenvolvimento, no caminho que elas percorreram até estar ali naquele momento presente onde eu me encontrava. Era um percurso imaginado. Então, recolhi algumas. Cogitei fazer um herbário.Mas não o fiz. Porém, continei observando as folhas, as pequenas quase imperceptíveis misturavam-se ao chão, a terra, ao concreto.Misturavam-se a poesia, ao conto. Entraram na minha escrita, percorrem as letras, as palavras e pararam em alguma frase, recurso da voz de um novo personagem, um botânico. Pesquisador e curioso. Tio de outra personagem.Sua paixão pelo mundo das plantas levará ambos para investigações no mundo da paleobotânica, uma nova história, um novo conto sendo escrito.

O Protagonista, um convívio pessoal

Encontrar o protagonista é uma tarefa que requer uma escuta ativa de minha parte e, um certo tempo para convivência com o personagem. Aqui entendo que o ato rotineiro de escrever como a melhor forma de relacionamento com o personagem.Sim.É como uma nova amizade.Costumo fazer várias perguntas para os meus personagens.Observar seus comportamentos quando e enquanto escrevo.Mas não é apenas imaginação e fantasia? Não.O fato de trata-los como sendo reais, não é uma questão de loucura ou um transtorno mental.Porém, utilizo esta maneira de pensar como uma técnica para criação de personagens. Normalmente, o protagonista é aquele personagem, o qual sua voz me interrompe várias vezes ao longo dia, mesmo quando não estou escrevendo.Essas interrupções são pertinentes pois o protagonista solicita a história qual ele pertence, a existência dele depende do ato da escrita.

Personagens, uma preferência discursiva

A escolha dos personagens que participarão do enredo é importante e, muitas vezes, crucial para desenrolar de uma narrativa.Nas minhas experiências de escrita ficcional percebi também que, às vezes, um personagem toma conta e apodera-se da trama. Se não tenho nada estruturado previamente a ser escrito, deixo este personagem dominante desenvolver-se no enredo ao máximo. Isto gera um grau de convivência maior com ele durante o processo de produção textual, o que me leva perceber a relevância desta voz para narrar. Assim consigo verificar qual é a importância deste personagem em questão naquela história em específico.

Além dos Olhos

A escolha do tema, a ideia inicial do que se quer escrever. Eu normalmente vejo uma cena na minha mente. Como se fosse um ruído de fundo nas minhas atividades cotidianas. De repente, a cena acontece e preciso prestar atenção nela de alguma forma. Para não perder a ideia, anoto no bloco de notas do meu celular. Deixo a anotação ali por algum tempo, não tenho critério quanto isto. O texto anotado pode ficar parado por meses até que eu volte nele para aproveitar a ideia ou descarta-la. Uma delas para exemplificar foi esta: ” Modi. Modigliani. Repete. Está deitado olhando o céu que chega até ele pela claraboia. Continua concentrado nas nuvens e no nome. Modi. Modigliani. Seus quadros…Lembra de alguns. Olha a hora no relógio. Enquanto ouve a ressonância da sua própria voz. Levanta-se vagarosamente. Retira o pano que cobre a tela. Inicialmente havia pintado um outro retrato. Depois resolveu alterar para o busto de uma mulher desconhecida.” Este trecho foi escrito em 17/06/20. O ruído no cotidiano, no caso a cena em questão veio à minha mente num momento no qual eu não estava gostando da minha atividade de trabalho. Gostaria muito de estar neste ateliê de pintura pensando no que pintar naquele quadro ou conversando com aquele pintor sobre arte, num ambiente totalmente oposto do qual eu me encontrava. Fuga da realidade. Sim. Com certeza a fuga da realidade pode ser um estímulo primoroso para imaginação. Mas existem outros. Quem nunca ouviu falar das musas. Bom, tratarei delas num próximo post. Agora, se gostaram da cena acima, aqui esta uma possível continuação. Aproveitem a leitura e obrigada.

Modi. Modigliani. Repete. Está deitado olhando o céu que chega até ele pela claraboia. Continua concentrado nas nuvens e no nome. Modi. Modigliani. Seus quadros… Lembra de alguns. Olha a hora no relógio. Enquanto ouve a ressonância da sua própria voz. Levanta-se vagarosamente. Retira o pano que cobre a tela. Havia pintado um outro retrato, inicialmente. Depois resolveu alterar para o busto de uma mulher desconhecida. Olhou para rosto dela, para seus olhos…Não gostou dos olhos. Seus olhos eram melancólicos demais. Não foi esta a impressão que quis pintar. Porém, estavam lá na tela e o observavam. Decidiu cobrir os olhos com pincelada de ocre. Verde Vessie. Percebeu seu erro. Deveria ter aceitado a melancolia dos olhos. Afinal, já pertencia a eles. E agora, o que fazer? Pintar os olhos novamente? Tentar resgatar a expressão deles? Era tarde. Eles já estavam submersos na tinta, no tecido da tela, na trama invisível da alma do observador.

    Curiosidade: Amedeo Modigliani foi importante pintor do século XIX. Famoso pela      pintura figurativa e em muitas delas, os olhos não eram pintados.

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